Como funciona o teclado chinês

Como funciona o teclado chinês

Você provavelmente imagina que o teclado chinês é como um órgão de igreja – um equipamento com metros de comprimento e com milhões de teclas. Na verdade, a maioria dos chineses usa o teclado padrão de layout latino – QWERTY. Mas como usando um teclado assim você pode conseguir escrever tantos ideogramas? Nós pedimos a uma colega nossa, Julia Dzeiris, nos contar sobre como funciona o teclado chinês. Ela tem uma velha ligação com a China, além de um grande amor e trabalho.

A história da questão: Máquina de escrever

Por milhares de anos, especialistas chineses conseguiram levar o número de ideogramas para mais de 50.000, e mesmo que o número necessário de símbolos no dia-a-dia não seja mais que dezenas de milhares, de qualquer forma, o conjunto padrão da tipografia é de 9000 símbolos.

Por muito tempo a composição era feita de principio “para cada ideograma uma tecla diferente”. Por isso, para trabalhar eram necessárias com máquinas monstruosas, como essa:

O elemento principal é o banco de ideogramas, que fica no bloco de tintas. Em cima dos ideogramas está preso um sistema mecânico: manivela, “pino” para pegar e um cilindro com papel. Todo esse mecanismo junto ao cilindro é capaz se mover pros 2 lados: esquerda e direita, e também para frente e para trás, dependendo do esforço de seu operador. Para escrever qualquer texto, você deve procurar o ideograma desejado com ajuda de uma lente por muito tempo, colocar o sistema em cima dele e, apertando a manivela, acionar o “pino” que pega o ideograma e ao mesmo tempo, virando, imprime-o no papel. Com isso o cilindro de papel se vira um pouco, liberando espaço para o próximo símbolo. Claro que o processo de impressão nessa máquina é muito devagar, um operador com experiência poderia teclar não mais que 11 ideogramas por minuto.

Em 1946 um famoso filólogo chinês, Lin Yutang, inventou uma máquina de escrever que usava um princípio completamente novo: dividir os ideogramas em partes principais.

Ao contrário dos antecessores de gabarito, a nova máquina não era maior que a maioria de seus análogos latinos, e mesmo teclas ela não tinha muitas. É porque as teclas não eram correspondentes a cada ideograma, mas para cada parte integrante dos ideogramas. No meio da máquina havia um “olho mágico”, e quando o operador teclava combinações de teclas, no “olho” apareciam os possíveis ideograma. Para aprovar a sua escolha, ele tinha que apertar uma chave funcional suplementar. Tendo somente 64 teclas, essa máquina poderia facilmente garantir 90.000 símbolos com uma velocidade de 50 símbolos por minuto!

E mesmo que Lin Yutang conseguiu a patente para sua invenção nos Estados Unidos, a máquina não foi um sucesso entre as massas.
Não é surpreendente, pois a fabricação de cada máquina naquele tempo custava mais ou menos 120 dólares. E também por acaso, no dia que foi marcada a representação para a companhia “Remington”, a máquina não funcionou, e mesmo o olho mágico não ajudou =) E essa idéia foi adiada por uns tempos.

Mas na época da propagação dos computadores, a idéia de Lin Yutang de separação dos ideogramas por partes integrantes teve vida nova. Ela foi essencial na base da nova estrutura dos métodos de captura dos ideogramas chineses, sobre o que nós vamos falar agora.

Métodos Estruturais

Existem não menos que dez métodos e todos eles são baseados na estrutura gráfica dos ideograma. Os ideogramas chineses são quebra-cabeças, reunidos de mesmas partes (ou grafemas). A quantidade desses grafemas não é tão grande, 208, um número já possível para “encaixar” nas teclas de um teclado normal. Seriam aproximadamente 8 grafemas para cada tecla, mas esse é um problema fácil de se resolver.

Um dos mais populares métodos de captura estrutural, o “ubi zisin” (Wubing zixing — “captura de 5 linhas”). Como ele funciona? Vou avisar já: é difícil.

Na verdade, todos os ideogramas podem ser divididos em 4 grupos:

1. Cinco linhas básicas (一, 丨, 丿, 丶, 乙) e mas 25 ideogramas usados frequentemente (cada um tem sua própria tecla).
2. Os ideogramas entre os quais há algum espaço. Por exemplo, o ideograma 苗 consiste dos grafemas 艹 e 田, entre os quais existe um espaço (na versão impressa eles são um pouco “prensados” e você pode achar que não há nenhum espaço entre eles, mas há).
3. Os ideogramas e grafemas que são juntos um com o outro. Assim, o ideograma 且 representa o grafema 月 junto com uma linha horizontal; 尺 consiste do grafema 尸 e uma linha diagonal.
4. Os ideogramas e grafemas que se cruzam ou se sobrepõem. Por exemplo, o ideograma 本 — é o cruzamento dos grafemas 木 e 一.

Então, nós mentalmente separamos o ideograma que queremos teclar em pequenos grafemas.
Qual é o seguinte passo? Primeiro, vejamos o layout UBI:

De primeira olhada você pode achar que os grafemas estão fora de ordem. De verdade, não é assim. O teclado é dividido em 5 zonas, o número de linhas básicas (são marcadas de cor no desenho). Dentro de cada zona as teclas são numeradas, do centro do teclado para as pontas. O número consiste de 2 cifras, de 1 até 5, depende de quais linhas básicas consiste o grafema.

Então, vamos começar dos ideogramas mais simples para captura, de grafemas maiúsculos de cada tecla (eles são marcados como letra maiúscula na tabela). Cada um deles é um dos 25 ideogramas mais usados, sobre quais nós falamos antes. Para teclar esse ideograma basta apertar 4 vezes para a correspondente tecla. Então, 金 = QQQQ, 立 = YYYY, etc.

Dessa forma, 毅 = U+E+M+C. Para capturar os ideogramas que consistem de 5 ou mais grafemas, é preciso teclar os 3 primeiros grafemas e o último.

O mais difícil é capturar os ideogramas que consistem de 2 ou 3 grafemas, pois existem muitos, e inevitavelmente aparecerão alguns ideogramas que consistem da mesma combinação de teclas. Para distinguí-los, foi criado um código especial. Esse código consiste de 2 cifras, a primeira é um número ordinal e a segunda é o número de grupo do ideograma (lembre-se que os ideogramas se dividem em 4 grupos).

Graças à Deus, para teclar a maioria dos ideogramas de uso mais frequente você não vai precisar pensar em códigos, pois os ideogramas aparecerão no monitor já depois de você pressionar as primeiras duas ou três teclas. Além disso, os 24 símbolos mais usados podem ser capturados pressionando mesmo só uma tecla (para eles existem as teclas correspondentes).

Defeitos de captura estrutural são evidentes: ela é muito difícil, acima está descrita apenas a versão simples. Para aprendê-lo, os chineses inventaram um verso especial de mnemônica, mas a captura estrutural abre muitas possibilidades de captura cega que aumenta a velocidade de captura em até 160 símbolos por minuto. Por isso os profissionais usam esse método.
Só pra não esquecer: 160 ideogramas por minuto é mais ou menos 500 teclas pressionadas por minuto!

Para a captura estrutural geralmente usam o teclado padrão QWERTY, pois a posição dos ideogramas você terá que estudar de qualquer jeito. Mas às vezes você pode encontrar o teclado assim, com grafemas nas teclas:

Mas na verdade, por todo o tempo que eu fiquei na China, nunca vi um teclado assim =)

Métodos Fonéticos

Máquinas de escrever que usam esse método de captura simplesmente não existem, por sua presença os métodos fonéticos são graças aos computadores, pois usando o método fonético você captura não ideogramas, mas a pronuncia deles, e o próprio sistema procura os ideogramas necessários. Mas tem um problema: no idioma chinês existem tantos símbolos que para a mesma pronúncia são correspondentes dezenas de ideogramas. O ideograma que você precisa você geralmente terá que escolher na mão, de uma lista, o que torna o processo bem lento. Para ajudar com isso, surgiram sistemas, como o T9.

O método fonético mais usado é o famoso “pinh inh” (Pinyin). Em sua base foi criado o sistema fonético de captura, que foi incluído no padrão Asian Language Pack do Windows (a partir da versão XP – antes disso você mesmo precisaria instalá-lo). Vamos ver como ele funciona.

Por exemplo, queremos teclar palavra “blogger” – wangminh.
Teclamos primeiro wang (ou wang3 com indicação de tom, para diminuir a quantidade de variantes). Depois de apertar o espaço, colocamos o ideograma com leitura de wang. Mas isso não é esse wang que precisamos. Clicamos nele com o botão direito do mouse:

Aparecerá uma linha comprida de correspondências. Podemos, “quebrando” o olho, procurar lá o nosso wang ou simplesmente colocar a segunda parte da palavra – minh. O sistema é muito inteligente, ele mesmo acha em seu vocabulário a palavra desejada, wangminh, e automaticamente escolhe wang e minh. WOO HOOO, conseguimos!

Os sistemas de captura Google Pinyin e Sogou Pinyin foram mais longe: eles as lembram preferências do usuário e ajudam com as palavras certas na base do contexto.

Mostramos, por exemplo, como o Google Pinyin analisa uma sucessão louca de palavras:

E dá a resposta certa:

Eu vi como o Wang Zhi Zhi jogava no mesmo jogo com o Yao Ming (a frase é sobre dois jogadores chineses basquete da NBA). O mais agradável é que que o nomes foram escritos certinho.

Em Taiwan existe um sistema alternativo ao pinying: a captura de diuing (Zhuyin). Eles não usam um as letras latino, mas um alfabeto especial que divide as palavras por sílabas, com significados parecidos dos ideogramas. Como existem poucos símbolos nesse alfabeto, é fácil colocá-los no teclado. Em Hong-Kong existe a própria variante para romanizar o dialeto local, Yutphinh (Jyutping), que também é usado para captura fonética.

O maior defeito da captura fonética é que a velocidade de digitação é bem baixa, mais ou menos 50 símbolos por minuto (se compara com o ubi disinh, de 160 símbolos por minuto). É porque a captura de ideogramas de método pinying se realiza, geralmente, apertando 6 teclas, enquanto que usando a captura ubi disinh bastam apenas 4 teclas. Além disso, captura cega desse jeito é impossível, e depois, você tem que saber pinying e diung, que não todos os chineses sabem, pois os conhecimentos do primeiro ano da escola (se tivessem) já ficam meio esquecidos. Nem sempre é possível lembrar como se ler algum ideograma raro. Mesmo assim, aprender pinying é mais fácil do que métodos estruturais. Para os estrangeiros, esse o sistema é como um “bálsamo para a alma”.

E dá pra ver que para o método fonético de captura você não vai precisar de algum teclado especial, é suficiente ter um teclado padrão de layout QWERTY. Por exemplo, esse teclado que está agora na sua frente já é bom o bastante 

Será que existe algum método “padrão”?

Não, não existe. Na China o método estrutural UBI e o fonético pinying são os mais famosos. Em Taiwan gostam do método fonético diuing, pois aprenderam na escola esse método e não o pinying, e também o já velho e não pratico método tantse (Cangjie). Ele foi criado ainda em 1976 e tem muitos defeitos até agora: é muito difícil com esse método colocar símbolos de pontuação, deve-se sempre adivinhar a forma certa de localização das partes dos ideogramas e lembrar o layout difícil (muitas pessoas de Taiwan até agora colam um papel no monitor com o layout para não esquecer). Em Hong Kong, eles aprendem o método tantse na escola e gostam mais dele do que dos outros métodos.

Métodos de Reconhecimento

Logo, nenhum dos métodos sobre os quais a gente já falou é o ideal. Não é surpreendente que os chineses decidiram usar a sua última chance, reconhecimento. Agora o kit de reconhecimento de voz e de textos escritos à mão é o padrão Language pack Windows 7.

Mas antes de começar a usar você deve colocar o sistema no regime de estudo por uns 15 minutos, para ele se acostumar com seu tom de voz e tipo de escrita.

Porém, os métodos de reconhecimento não conseguiram muito sucesso e o teclado normal ainda é o mais seguro. E depois, o reconhecimento do idioma chinês fica mais difícil por que não há tantos chineses com a pronúncia ideal. As particularidades de sotaque existem em cada lugar e “estragam” o desenho todo, especialmente estrangeiros, que aprendem no máximo 4 tons de voz.

Claro que existem outros métodos, por exemplo, um site muito popular que se chama Nciku dá a possibilidade de desenhar ideogramas usando o mouse e escolher o ideograma certo dentre aqueles que o sistema irá propor.

FUNCIONA! =)

É assim como você imaginava o teclado chinês?

Sim, sim, o teclado chinês com um milhão teclas. Por motivos claros, esse tipo de teclado não é usado, mas concorde, é bom imaginar que ele existe. Assim como você imaginava! =)

12 thoughts on “Como funciona o teclado chinês

  1. Pingback: Como funciona o teclado chinês | Linkes

  2. Eka Post author

    Guilherme, talvez você poderia realizar esse grande projeto e inventar um novo alfabeto para simplificar a vida de coitados chineses? hahahah
    Mas de verdade, pena que Esperanto não ficou tão famoso, poderia muito ajudar pra eles e pra outras pessoas pra comunicar e escrever sem barreiras de linguas.

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  3. Guilherme

    Sim a ideia de uma lingua universal realmente ajudaria e muito!!!
    Mas com relação ao grande projeto do alfabeto chines acredito que dentro de uma população de mais de 1 Bilhão de pessoas que falam o mandarim, deve existir alguem mais capacitado do que eu, ainda mais que eu nem falo mandarim!

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  4. afneto

    Aff, pensei que fosse uma dessas informações básicas, mas vc deu uma explicação completa.
    Se eu quisesse podia aprender nesse texto algumas coisas a mais e impressionar alguém que escreve em chinês.

    Vim aqui pra ver se era verdade aquela foto de um teclado chinês em forma de círculo, com umas 300 teclas que andam postando por aí.
    Alguma informação?

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  5. afneto

    Aff, pensei que fosse uma dessas informações básicas, mas vc deu uma explicação completa.
    Se eu quisesse podia aprender nesse texto algumas coisas a mais e impressionar alguém que escreve em chinês.
    Vim aqui pra ver se era verdade aquela foto de um teclado chinês em forma de círculo, com umas 300 teclas que andam postando por aí.
    Alguma informação?

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  6. eliza

    Existem vários chineses que sabem o esperanto (acho que é mais fácil), mas quanto mais memorizamos, melhor fica a nossa memória, talvez seja por isso que são tão inteligentes!

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